
Ontem tinha dois sujeitos junto da mulecada que fica enchendo a cara na frente das grades do banco safra na esquina da Paulista com a Augusta. Até aí nada de novo, podiam ser dois pedófilos à espreita, podiam ser dois agentes eclesiásticos (o que não difere muito) prestes a converter as ovelhas desgarradas, podiam ser qualquer um; mas a cara e principalmente o jeito de P2 de ser é inconfundível; camiseta, shortinho e tênis de atletismo no meio de uma pivetada hard-punk-emo-fashion é de fudê, mas nunca bate o olhar, a expressão do rosto de alguém extremamente humilhado prestes a descontar todo o ódio que o oficial da ordem unida do dia passou, no primeiro que...
Pergunta super inocente, se o estado é a união das pessoas que o formam, se o governo seria responsável por manter a harmonia desses seres humanos que perfazem o Estado, que catzo é esse tal processo histórico-social de terror policialesco? Seria o bicho papão das estórias infantis?
Bem, evidentemente, no Oriente Próximo, há cerca de dez mil anos. Foi lá que a nossa forma peculiar e determinante de agricultura surgiu e nós começamos a ser nós. Ali foi o nosso local de nascimento cultural. Foi onde e quando deslizamos para aquela água maravilhosamente agradável: o Oriente Próximo, há dez mil anos.
À medida que a água do caldeirão vai esquentando, a rã não sente nada além de um calor agradável e, na verdade, é tudo quanto ela pode sentir. Muito tempo tem de passar antes que a água fique perigosamente quente, e a nossa história demonstra isso. Durante quase toda a primeira metade da nossa história, os primeiros cinco mil anos, os sinais de perigo quase não existiam. As inovações tecnológicas desse período levaram uma vida silenciosa, girando em torno do fogo da lareira e da aldeia ? o tijolo seco ao sol, a cerâmica queimada no forno, a tecelagem de roupas, o torno do oleiro, e assim por diante. Mas, aos poucos, imperceptivelmente, os sinais de perigo começaram a surgir, como bolhas minúsculas no fundo de um caldeirão.
Que devemos procurar como sinais de perigo? Suicídios em massa? Revolução? Terrorismo? Não, claro que não. Essas coisas vieram muito depois, quando a água já estava escaldante. Há cinco mil anos, ela estava justamente começando a esquentar. As pessoas enxugavam a testa, sorrindo umas para as outras, e diziam: "Não é maravilhoso"?
Vocês vão saber onde encontrar sinais de perigo se identificarem o fogo que estava ardendo embaixo do caldeirão. Estava ardendo lá no começo, estava ardendo depois de cinco mil anos... e ainda está ardendo hoje exatamente da mesma forma. Era e é o grande fator de aquecimento da nossa revolução. É essencial. É a condição sine qua non do nosso sucesso – se é que isso seja sucesso.
Falem! Alguém me diga no que estou pensando!
"Agricultura!"
Agricultura, diz esse cavalheiro.
Não. Não foi a agricultura. Foi um sistema particular de agricultura. Um sistema particular que tem sido a base da nossa cultura desde seus primórdios, há dez mil anos, até o momento presente " a base da nossa cultura e que não é encontrado em nenhuma outra. É a nossa, é o que faz de nós quem somos. Por sua crueldade implacável para com todas as outras formas de vida deste planeta e por sua determinação inflexível de converter todo metro quadrado deste planeta em local de produção de comida para os seres humanos, dei-lhe o nome de agricultura totalitária.
Os etnólogos, que estudam o comportamento dos animais, mais um punhado de filósofos que pensaram no assunto, sabem que existe uma forma de ética praticada pela comunidade da vida deste planeta " isto é, menos por nós. É um tipo muito prático de ética (que vocês poderiam chamar de darwiniana), uma vez que serve para salvaguardar e promover a diversidade biológica no seio da comunidade. Segundo essa ética, seguida por todos os tipos de criaturas da comunidade da vida, pelos tubarões assim como pelos carneiros, pelas abelhas assassinas, assim como pelas borboletas, você pode competir com o máximo de suas capacidades, mas não pode liquidar seus concorrentes, nem destruir sua comida, nem negar-lhes acesso a ela. Em outras palavras, você pode competir, mas não pode declarar guerra. Essa ética é violada em todos os seus aspectos pelos praticantes da agricultura totalitária. Nós liquidamos nossos concorrentes, destruímos sua comida e lhes negamos acesso a ela. Esse é de fato o objetivo final da agricultura totalitária. A agricultura totalitária baseia-se na premissa de que toda a comida do mundo pertence a nós e de que não há absolutamente nenhum limite para o que podemos tomar para nós e negar a todos os outros.
A agricultura totalitária não foi adotada por nossa cultura devido ao egoísmo puro e simples. Foi adotada porque, por sua própria natureza, é mais produtiva do que qualquer outro sistema (e existem muitos outros). A agricultura totalitária representa a produtividade no seu ponto máximo, como os americanos gostam de dizer. Representa a produtividade numa forma que é literalmente insuperável.
Muitos sistemas de agricultura (não todos, mas muitos) produzem excedentes de comida. Mas, o que não é de surpreender, a agricultura totalitária produz excedentes maiores do que qualquer outro sistema. Produz o máximo de excedentes. Você simplesmente não tem como superar um sistema concebido para converter toda a comida do mundo em alimento para os seres humanos.
A agricultura totalitária é o fogo embaixo do caldeirão. A agricultura totalitária é o que nos manteve "fervendo" aqui durante dez mil anos.
- A comida disponível e o crescimento da população
Os membros da nossa cultura consideram a comida um ponto tão pacífico que muitas vezes passam maus bocados ao ver que existe uma ligação necessária entre a comida disponível e o crescimento da população. Para eles, descobri que é preciso construir um pequeno experimento ilustrativo com ratos de laboratório.
Imaginem, se quiserem, uma gaiola que tenha lados removíveis, de modo que possa ser aumentada e ficar de qualquer tamanho desejado. Começamos pondo dez ratos saudáveis de ambos os sexos na gaiola, junto com bastante água e comida. Em poucos dias, é evidente que teremos vinte ratos ali e, para acomodá-los, aumentamos a quantidade de comida da gaiola. Depois de algumas semanas, como aumentamos regularmente a quantidade de comida disponível, teremos quarenta, depois cinqüenta, depois sessenta ratos, e assim por diante, até que, certo dia, temos cem. E digamos que decidimos interromper o crescimento da colônia em cem ratos. Tenho certeza de que vocês entendem que não precisamos lhes fornecer preservativos nem pílulas anticoncepcionais para conseguir isso. Tudo o que temos de fazer é parar de aumentar a quantidade de comida da gaiola. Todos os dias colocamos lá uma quantidade que sabemos ser suficiente para sustentar cem ratos e nenhum mais. Essa é a parte que muitos acham difícil de acreditar, mas, podem ter certeza, é verdade: o crescimento da comunidade pára completamente. Não da noite para o dia, óbvio, mas em muito pouco tempo. Colocando lá uma quantidade de comida suficiente para cem ratos, descobrirmos todas as vezes que a população da gaiola logo se estabiliza em cem ratos. É claro que não quero dizer exatamente cem. Vai flutuar entre noventa e cento e dez, mas nunca vai muito além desses limites. Em média, dia após dia, ano após ano, década após década, a população da gaiola será de cem ratos.
Bem, se agora resolvêssemos ter uma população de duzentos ratos em vez de cem, não precisaríamos acrescentar afrodisíacos à dieta deles, nem passar filmes eróticos com ratos para eles. Só teríamos de aumentar a quantidade de comida na gaiola. Se pusermos comida suficiente para duzentos ratos, logo teremos duzentos ratos. Se pusermos comida suficiente para trezentos, logo teremos trezentos. Se pusermos comida suficiente para quatrocentos, logo teremos quatrocentos. Se pusermos comida suficiente para quinhentos, logo teremos quinhentos. Não se trata de uma suposição, meus amigos. Não é uma conjectura. É uma certeza.
É claro que vocês entendem que, nesse sentido, os ratos não têm nada de especial. Isso aconteceria também com grilos, trutas, texugos ou pardais. Mas receio que muitas pessoas resistiriam à idéia de que os seres humanos possam ser incluídos nessa lista. Porque enquanto indivíduos somos capazes de governar nossa capacidade de nos reproduzir, essas pessoas imaginam que o nosso crescimento enquanto espécie deve ser insensível à simples disponibilidade de alimento.
Felizmente para o que estou tentando dizer aqui, tenho bastante dados que comprovam que, como espécie, somos tão sensíveis quanto qualquer outra à disponibilidade de alimento; três milhões de anos de dados, na verdade. Pois, com exceção dos últimos dez mil anos de todo esse período de três milhões de anos, a espécie humana foi um membro muito secundário do ecossistema mundial. Imaginem só: três milhões de anos e a raça humana não cobriu a Terra inteira! Houve um certo crescimento, é óbvio, por meio da simples migração de continente para continente, mas esse crescimento estava se dando numa proporção ridícula. Estima-se que a população humana no começo do Neolítico fosse cerca de dez milhões de pessoas; dez milhões, imaginem só!? Depois de três milhões de anos!
E então, muito repentinamente, as coisas começaram a mudar. E a mudança se resumiu no seguinte: os membros de uma cultura, num canto do mundo, desenvolveram uma forma peculiar de agricultura que tornou a comida disponível para os seres humanos em quantidades nunca vistas antes. De acordo com isso, nesse canto do mundo, a população dobrou em apenas três mil anos. Depois dobrou de novo, dessa vez em apenas dois mil anos. Num piscar de olhos em termos da escala geológica, a população humana saltou de dez milhões para cinqüenta milhões de pessoas – provavelmente oitenta por cento delas praticantes da agricultura totalitária: membros da nossa cultura, no Oriente e no Ocidente.
A água do caldeirão estava começando a esquentar e os sinais de perigo, a aparecer.
- Sinais de perigo: 5000–3000 a.C.
Estava ficando apinhado de gente. Pensem nisso. As pessoas achavam que a história era inevitavelmente cíclica, mas o que estou descrevendo aqui nunca aconteceu antes. Ao longo de todos aqueles três milhões de anos, os seres humanos nunca tinham se aglomerado daquele jeito em lugar nenhum. Mas, agora, os membros de uma única cultura, "a nossa cultura", estão descobrindo o que significa superpopulação. Aquele lugar começava a ficar apinhado de gente e a terra, esgotada pelo excesso de plantio e pastoreio, estava ficando cada vez menos produtiva. Havia mais pessoas e elas estavam competindo por uma quantidade cada vez menor de recursos.
A água está esquentando em volta da rã e lembrem-se de que estamos à procura de sinais de perigo. Que acontece quando mais gente começa a competir por menos recursos? A resposta é óbvia. Todo estudante sabe. Quando mais pessoas principiam a competir por menos recursos, elas começam a brigar. Mas é claro que não brigam a esmo. O açougueiro da cidade não trava uma batalha com o padeiro da cidade; o alfaiate da cidade não trava uma batalha com o sapateiro da cidade. Não. O açougueiro, o padeiro, o alfaiate e o sapateiro da cidade juntam-se para lutar contra o açougueiro, o padeiro, o alfaiate e o sapateiro de outra cidade.
Não precisamos ver corpos estendidos nos campos para entender que esse foi o início da era de guerra que continuou até o presente momento. O que temos de entender é a maquinaria da guerra. Não me refiro à maquinaria mecânica, carruagens, catapultas, escadas e outros dispositivos empregados para sitiar cidades. Refiro-me à maquinaria política. Açougueiros, padeiros, alfaiates e sapateiros não se organizam sozinhos em exércitos. Precisam de comandantes de guerra - reis, príncipes, imperadores.
É durante esse período, que começou há cerca de cinco mil anos, que vemos os primeiros Estados formados com o objetivo de defesa e agressão armadas. É durante esse período que vemos o exército permanente forjado como a espada do poder do monarca. Sem um exército permanente, um rei é apenas um falastrão fantasiado. Vocês sabem disso. Mas, com um exército permanente, um rei pode impor sua vontade aos inimigos e gravar seu nome na história e os únicos nomes que conhecemos desde o início dessa era são os nomes de reis conquistadores. Nada de cientistas, filósofos, historiadores ou profetas; só conquistadores. Repito: nada cíclico estava acontecendo aqui. Pela primeira vez na história humana, as pessoas importantes eram pessoas que dispunham de exércitos.
Agora, notem que ninguém pensou que o surgimento de exércitos fosse um mau sinal, um sinal de perigo. Pensaram que era um bom sinal. Pensaram que os exércitos representavam um progresso. A água estava começando a ficar deliciosamente quente e ninguém estava preocupado com meia dúzia de bolhas.
Depois desse ponto, as necessidades militares tornaram-se o principal estímulo para o avanço tecnológico da nossa cultura. Não há nada de errado nisso, há? Nossos soldados precisam de armaduras melhores, espadas melhores, carruagens melhores, arcos e flechas melhores, máquinas de escalar muros melhores, aríetes melhores, artilharia melhor, revólveres melhores, tanques melhores, aviões melhores, bombas melhores, foguetes melhores, gases asfixiantes melhores... bem, vocês estão entendendo o que quero dizer. A essa altura, ninguém via a tecnologia a serviço da guerra como um sinal de algo ruim. Achavam que era um progresso.
A partir desse ponto, a freqüência e a seriedade das guerras servem apenas para medir o calor da água em volta da nossa rã sorridente.
- Sinais de perigo: 3000–1400 a.C.
O fogo ardia embaixo do caldeirão da nossa cultura e a nossa população precisou apenas de mil e seiscentos anos para dobrar de novo. Havia cem milhões de seres humanos agora, em 1400 a.C., e provavelmente noventa por cento deles eram membros da nossa cultura. O Oriente Próximo já não era grande o bastante para nós havia muito tempo. A agricultura totalitária dirigira-se para o norte e para o leste, penetrando na Rússia, Índia e China, e para o norte e para o oeste, entrando na Ásia Menor e na Europa. Outros tipos de agricultura já haviam sido praticados em todas essas terras, mas agora – é preciso dizer? – agricultura era sinônimo de nosso sistema de agricultura.
A água está ficando mais quente, cada vez mais quente. Todos os antigos sinais de perigo estão ali, evidentes, por que desapareceriam? À medida que a água esquenta, os antigos sinais vão ficando maiores e mais dramáticos. Guerra? As guerras da era anterior eram questõezinhas insignificantes comparadas às guerras desta era. Estamos na Idade do Bronze! Armas de verdade, Deus do céu! Armaduras de verdade! Imensos exércitos permanentes, sustentados pela inacreditável riqueza imperial!
Ao contrário dos sinais de guerra, outros sinais de perigo não são gravados no bronze, nem na pedra. Ninguém esculpe afrescos para mostrar a vida das favelas de Ménfis ou de Tróia. Ninguém escreve novas histórias para expor a corrupção oficial em Cnossos ou em Mohenjo-Daro. Ninguém faz documentários sobre o comércio de escravos. Apesar disso, há pelo menos um sinal que pode ser visto nas provas: o crime estava surgindo como um problema.
Olhando para o rosto de vocês, vejo como ficaram pouco impressionados com essas notícias. Crime? O crime é universal entre os seres humanos, não é? Não, na verdade não é. Mau comportamento, sim. Comportamento desagradável, comportamento destrutivo, sim. Homens e mulheres sempre vão se apaixonar pela pessoa errada ou perder a calma, ou ser estúpidos, gananciosos ou vingativos. O crime é outra coisa, e todos sabemos disso. O que chamamos de crime não existe entre as populações tribais, mas não porque eles são melhores do que nós, mas porque estão organizados de forma diferente. Esse é um assunto que merece um tempinho mais.
Quando alguém nos irrita, digamos, porque está sempre nos interrompendo quando estamos falando, isso não é crime. Você não pode chamar a polícia e mandar prender essa pessoa, fazer com que seja julgada e condenada a cumprir uma sentença, porque interromper alguém que está falando não é crime. Significa que nós mesmos vamos ter de resolver o problema, do jeito que pudermos. Mas, se essa mesma pessoa entra em sua propriedade e se recusa a ir embora? Isso é uma invasão, um crime, você tem todo o direito de chamar a polícia e mandar prender, julgar e até condená-la a cumprir uma pena. Em outras palavras: crimes envolvem a maquinaria do Estado, enquanto outros comportamentos desagradáveis, não. Crime é aquilo que o Estado define como tal. Invasão de propriedade é crime, mas interromper alguém que está falando não é e, por isso, temos duas formas inteiramente diferentes de enfrentá-los; o que os membros das sociedades tribais não têm. Seja qual for o problema, quer se trate de falta de educação ou de assassinato, eles enfrentam o problema sozinhos, da mesma maneira que você enfrenta aquele que o interrompe. Eles não têm a opção de invocar o poder do Estado, porque não têm Estado. Nas sociedades tribais, o crime simplesmente não existe enquanto uma categoria distinta de comportamento humano.
Notem mais uma vez: não há nada de cíclico no surgimento do crime na sociedade humana. Pela primeira vez na história as pessoas estavam lidando com o crime. E notem que o crime apareceu durante a aurora da palavra escrita. Isso significa que, assim que as pessoas começaram a escrever, começaram a promulgar leis; porque a escrita possibilitou-lhes fazer algo que não tinham condições de fazer antes. A escrita possibilitou-lhes definir em termos exatos e fixos os comportamentos que queriam que o Estado regulasse, punisse e suprimisse.
A partir desse ponto, o crime teria uma identidade própria como "um problema" da nossa cultura. Da mesma forma que a guerra, veio para ficar conosco no Oriente e no Ocidente, exatamente até o presente momento. A partir desse ponto, o crime se somaria à guerra como uma medida do calor da água em volta da nossa rã sorridente.
- Sinais de perigo: 1400–0 a.C.
O fogo ardia embaixo do caldeirão da nossa cultura, e a população só precisou de mil e quatrocentos anos para dobrar de novo. Agora havia duzentos milhões de seres humanos, no início de nossa "Era Cristã", e noventa e nove por cento ou mais pertenciam à nossa cultura, no Oriente e no Ocidente.
Foi uma era de aventureirismo político e militar. Hamurabi tornou-se senhor de toda a Mesopotâmia. Sesóstris III do Egito invadiu a Palestina e a Síria. Tiglate-Pileser, da Assíria, estendeu seu poder até as praias do Mediterrâneo. O faraó egípcio Sheshonk invadiu a Palestina. Tiglate-Píleser III conquistou a Síria, a Palestina, Israel e a Babilônia. Nabucodonosor II da Babilônia tomou Jerusalém e Tiro. Ciro, o Grande, estendeu seu poder por todo o ocidente civilizado, empreendimento repetido, dois séculos depois, por Alexandre, o Grande.
Foi também uma era de assassinatos e revoltas civis. O reinado de Shalmaneser, da Assíria, terminou em revolução. Uma revolta de Chalcontra o domínio ateniense marcou o início de um conflito de vinte anos, conhecido como a Guerra do Peloponeso. Alguns anos depois, Mitilene, em Lesbos, também se revoltou. Espartanos, aqueus e arcádios organizaram uma rebelião contra o domínio macedônio. Uma revolta no Egito trouxe Ptolomeu III de volta para casa, vindo de uma campanha militar na Síria. Filipe da Macedônia foi assassinado, bem como Dario III da Pérsia, Seleuco III Sóter, o general cartaginês Asdrúbal, o reformador social Tibério Semprônio Graco, o rei selêucida Antíoco VIII, o imperador chinês Wong Mong e os imperadores romanos Cláudio e Domiciano.
Mas esses sinais de tensão não eram os únicos perceptíveis nessa era. Falsificações, enfraquecimento da moeda e inflação calamitosa.Todos esses truques sujos eram vistos regularmente agora. A fome tornou-se uma característica comum da vida de todo o mundo civilizado, assim como a peste, sempre um sintoma de superpopulação e falta de saneamento; em 429 a.C, a peste bubônica varreu dois terços da população de Atenas. Os pensadores, tanto na China quanto na Europa, começavam a recomendar às pessoas que tivessem famílias menores.
A escravidão tornou-se um imenso negócio internacional e, evidentemente, continuaria até o presente momento. Estima-se que, em meados do século IV, uma de cada três ou quatro pessoas de Atenas era escravo. Quando Cartago foi vencida por Roma em 146 a.C., cinqüenta mil sobreviventes foram vendidos como escravos. Em 132 a.C, cerca de setenta mil escravos romanos rebelaram-se; quando a revolta foi debelada, vinte mil foram crucificados, mas Roma estava longe de solucionar seus problemas com os escravos.
No entanto, novos sinais de perigo surgiram nesse período, sinais que eram muito mais relevantes para os nossos objetivos aqui esta noite. Pela primeira vez na história, as pessoas estavam começando a suspeitar que algo fundamentalmente errado estava acontecendo aqui. Pela primeira vez na história, as pessoas estavam começando a se sentir vazias, estavam começando a sentir que sua vida não tinha muito sentido, estavam começando a se perguntar se isso é tudo quanto há na vida, estavam começando a ansiar por algo vagamente superior. Pela primeira vez na história, as pessoas começaram a ouvir mestres religiosos que prometiam salvação.
É impossível descrever a novidade dessa idéia de salvação sem exagerá-la. A religião existia em nossa cultura havia milhares de anos, evidentemente, mas nunca tratara de salvação tal como a entendemos ou como as pessoas dessa época começaram a entendê-la. Os deuses mais antigos foram deuses talismânicos da comida e da colheita, da mineração e do orvalho, da pintura da casa e do pastoreio, a quem se procurava agradar conforme a necessidade, acariciando-os como se fossem amuletos de sorte, e as religiões mais antigas tinham sido religiões estatais, parte do aparato de soberania e governo (como fica evidente em seus templos, construídos para cerimônias régias, não para devoções públicas e populares).
O judaísmo, o bramanismo, o hinduísmo, o xintoísmo e o budismo nasceram nesse período; não existiam antes. Repentinamente, depois de seis mil anos de agricultura totalitária e ação civilizatória, os membros da nossa cultura do Oriente e do Ocidente, gêmeos idênticos, filhos dos mesmos pais estavam começando a se perguntar se sua vida tinha sentido, estavam começando a perceber um vazio dentro de si que o sucesso econômico e o prestígio social não poderiam preencher, estavam começando a imaginar que algo estava profundamente, e até inerentemente, errado com eles.
- Sinais de perigo: 0–1200 d.C.
O fogo continuava ardendo embaixo do caldeirão da nossa cultura e a nossa população só precisou de mais mil e duzentos anos para dobrar de novo. Havia quatrocentos milhões de seres humanos no final desse processo, noventa e oito por cento dos quais fazendo parte da nossa cultura, no Oriente e no Ocidente. A guerra, a peste, a fome, a corrupção política, a inquietação, o crime e a instabilidade econômica eram e continuariam sendo acessórios da nossa cultura. As religiões salvacionistas entrincheiraram-se no Oriente durante séculos quando esse período começou, mas o grande império do Ocidente ainda evocava suas dezenas de divindades talismânicas, de Éolo a Zéfiro. Apesar disso, as camadas mais pobres desse império, os escravos, os povos conquistados, os camponeses, as massas desprivilegiadas estavam prontas quando a primeira religião salvacionista do Ocidente bateu à sua porta. Foi fácil para elas conceberem a humanidade como inerentemente imperfeita e a si mesmas como pecadores que precisavam ser protegidos da danação eterna. Estavam prontas a desprezar o mundo e a sonhar com uma vida abençoada após a morte, na qual os pobres e humildes deste mundo seriam elevados acima dos orgulhosos e poderosos.
O fogo continuava ardendo ininterruptamente embaixo do caldeirão da nossa cultura, mas, por toda parte, as pessoas dispunham agora de religiões salvacionistas para lhes mostrar a maneira de entender e enfrentar o desconforto inevitável de estar vivo. Os adeptos tendem a concentrar-se nas diferenças entre essas religiões, mas eu me concentro em suas similaridades, que são as seguintes: a condição humana é o que é e nenhum tipo de esforço de sua parte vai mudá-la; não está em seu poder salvar seu povo, seus amigos, seus pais, seus filhos ou seu cônjuge, mas há uma pessoa (e somente uma) que você pode salvar – você. Ninguém pode salvá-lo além de você mesmo, e não há ninguém que você possa salvar além de você mesmo. Você pode levar a palavra aos outros e eles podem trazê-la para você, mas nunca passa disso, seja o budismo, o hinduísmo, o judaísmo, o cristianismo ou o islamismo: ninguém pode salvá-lo além de você mesmo e não há ninguém que você possa salvar além de você mesmo. Evidentemente, a salvação é a coisa mais maravilhosa que você pode conseguir nessa vida e você não só não é obrigado a reparti-la, como nem mesmo é possível reparti-la.
Até o ponto em que essas religiões elaboraram o conceito de salvação, se você não a consegue, seu fracasso é total, quer os outros a consigam, quer não. Por outro lado, se você encontra a salvação, seu sucesso é total repito, quer os outros a consigam, quer não. Em última instância, tal como essas religiões colocam a questão, se você é salvo, então literalmente nada mais importa em todo o universo. Sua salvação é o que importa. Mais nada nem mesmo a minha salvação (exceto, naturalmente, para mim).
Essa foi a nova visão do que interessa no mundo. Esqueça a água fervente, esqueça o sofrimento. Nada lhe interessa além de você e sua salvação.
- Sinais de perigo: 1200–1700
Era uma visão e tanto mas é claro que o fogo continuava ardendo embaixo do caldeirão da nossa cultura e a nossa população só levou outros quinhentos anos para dobrar de novo. Havia oitocentos milhões de seres humanos no final desse processo, noventa e nove por cento faziam parte da nossa cultura, no Oriente e no Ocidente. É a era da peste bubônica, da horda mongol, da Inquisição. O primeiro asilo de loucos de que se tem notícia, assim como a primeira prisão para devedores, foram abertos em Londres. Os camponeses revoltaram-se na França em 1251 e 1358, os operários da indústria têxtil revoltaram-se em Flandres em 1280; a rebelião de Wat Tyler levou a Inglaterra à anarquia em 1381, quando trabalhadores de todos os ramos uniram-se para exigir o fim da exploração; os trabalhadores amotinaram-se no Japão devastado pela peste e pela fome em 1428; os servos da Boêmia revoltam-se oito anos depois. A Peste Negra chega para devastar a Europa em meados do século XIV e volta periodicamente durante os dois séculos seguintes, matando dezenas de milhares de pessoas a cada erupção; em somente dois anos, durante o século XVII, matou um milhão de pessoas no norte da Itália. Os judeus vinham a calhar como bode expiatório para o sofrimento de qualquer um, para qualquer coisa que desse errado; a França tenta expulsá-los em 1252, depois os obriga a usar emblemas distintivos, e depois despoja-os de seus bens, e depois tenta expulsá-los de novo; a Inglaterra tenta expulsá-los em 1290 e em 1306; Colônia tenta expulsá-los em 1414; acusados de disseminar a Peste Negra em qualquer momento e em qualquer lugar aonde ela chega, milhares deles são enforcados e queimados vivos; Castela tenta expulsá-los em 1492; milhares deles são assassinados em Lisboa em 1506; o papa Paulo III manda levantar muros para separá-los do resto de Roma, criando o primeiro gueto.
A angústia dessa era expressa-se em movimentos de flagelados que alimentam a idéia de que Deus não será tentado a conceber castigos extravagantes para nós (pestes, fomes, guerras, e assim por diante) se nos anteciparmos a ele infligindo castigos extravagantes a nós mesmos. Por algum tempo, em 1374, Aix-la-Chapelle é tomada por uma estranha mania que enche as ruas de milhares de dançarinos frenéticos. Milhões morrem quando a fome atinge o Japão em 1232, a Alemanha e a Itália em 1258, a Inglaterra em 1294 e 1555, a Áustria em 1596, a Rússia em 1603, a Dinamarca em 1650, Bengala em 1669, o Japão em 1674. Sífilis e tifo surgem na Europa. O ergotismo, um envenenamento provocado por um fungo que prolifera nos alimentos, torna-se endêmico na Alemanha e mata milhares de pessoas. Uma doença desconhecida que provoca suor visita e revisita a Inglaterra e mata dezenas de milhares de pessoas. As epidemias de varíola, tifo e difteria liquidam milhares de seres humanos. Os inquisidores desenvolvem uma nova técnica de combate à heresia e à feitiçaria, torturando suspeitos até eles comprometerem outras pessoas, que são torturadas até comprometerem outras, que são torturadas até comprometerem outras, ad infinitum. O tráfico de escravos floresce e milhões de africanos são transportados para o Novo Mundo. Não vou me dar ao trabalho de mencionar a guerra, a corrupção política e o crime, que continuam grassando e atingem novas alturas. São poucos os que questionam Thomas Hobbes quando, em 1651, ele descreve a vida do homem como "solitária, pobre, repulsiva, brutal e curta". Alguns anos depois, Blaise Pascal diria que "todos os homens odeiam-se naturalmente". O período termina em décadas de caos econômico, exacerbado por revoltas, fomes e epidemias.
O cristianismo torna-se a primeira religião salvacionista global e penetra no Extremo Oriente e no Novo Mundo. Ao mesmo tempo, fragmenta-se. A primeira divisão sofre uma resistência feroz, mas, depois dela, a desintegração torna-se lugar-comum.
Por favor, não fechem os olhos para o que estou querendo dizer aqui. Não estou reunindo sinais da maldade humana. São reações à superpopulação, gente demais competindo por uma quantidade muito pequena de recursos, comendo alimentos estragados, bebendo água suja, vendo a família morrer de fome, vendo a família cair vítima da peste.
- Sinais de perigo: 1700–1900
O fogo continuava ardendo embaixo do caldeirão da nossa cultura e a nossa população só levou duzentos anos para dobrar de novo. Havia um bilhão e meio de seres humanos no final do processo, dos quais noventa e nove por cento faziam parte da nossa cultura, no Oriente e no Ocidente. Seria um período em que, pela primeira vez, os profetas religiosos atrairiam seguidores pelo simples fato de prever o fim iminente do mundo; em que o comércio de ópio se tornaria um grande negócio internacional, patrocinado pela Companhia das Índias Ocidentais e protegido pelos navios de guerra ingleses; em que a Austrália, a Nova Guiné, a Índia, a Indochina e a África seriam declaradas colônias e exploradas como tais pelas maiores potências da Europa; em que os povos indígenas de todas as partes do mundo seriam liquidados aos milhões por doenças levadas pelos europeus: sarampo, pelagra, coqueluche, varíola, cólera; com outros tantos milhões amontoados em reservas ou simplesmente mortos para dar espaço à expansão branca.
Isso não significa que só os povos nativos estivessem sofrendo. Sessenta milhões de europeus morreram de varíola só no século XVIII. Dez milhões morreram de epidemias de cólera. Eu precisaria de dez minutos para citar a lista de todas as dezenas de manifestações fatais da peste bubônica, do tifo, da febre amarela, da escarlatina e da gripe durante esse período. E qualquer um que duvide da relação direta entre agricultura e fome só precisa examinar a documentação relativa a esse período: safras insuficientes e fome, que se repetem muitas e muitas vezes em todo o mundo civilizado. Os números são assombrosos. Dez milhões de pessoas morreram de fome em Bengala em 1769. Dois milhões, na Irlanda e na Rússia em 1845 e 1846. Quase quinze milhões na China e na Índia, de 1876 a 1879. Na França, na Alemanha, na Itália, na Inglaterra, no Japão e em outros países, dezenas de milhares centenas de milhares de pessoas morreram em conseqüência de outras fomes, numerosas demais para serem citadas.
À medida que as cidades tornaram-se mais populosas, a angústia humana foi atingindo alturas que teriam sido inimagináveis nas eras anteriores, com centenas de milhões de pessoas morando em favelas de imundície inconcebível, presas de doenças transmitidas por ratos e água contaminada, sem educação ou meios de melhorar a sorte. O crime floresceu como nunca e, em geral, era punido com mutilações feitas em público, marcas de ferro em brasa, açoites ou morte; o encarceramento como forma alternativa de punição só surgiu no final desse período. A doença mental também floresceu como nunca: loucura, insanidade, seja qual for o nome que prefiram lhe dar. Ninguém sabia o que fazer com os loucos; em geral, eram encarcerados junto com criminosos acorrentados às paredes, açoitados, esquecidos.
A instabilidade econômica continuava intensa e suas conseqüências foram sentidas numa amplitude maior do que nunca. Três anos de caos econômico na França levaram diretamente à revolução de 1789, que respondeu por cerca de quatrocentas mil vítimas queimadas, fuziladas, afogadas ou guilhotinadas. As depressões e colapsos periódicos dos mercados liquidaram centenas de milhares de negócios e levaram milhões a morrer de fome.
Essa era também anunciou a Revolução Industrial, claro, mas ela também não trouxe despreocupação e prosperidade para as massas; trouxe, isso sim, uma exploração gananciosa e absolutamente implacável, com mulheres e crianças pequenas trabalhando dez, doze e até mais horas por dia em oficinas de fundo de quintal, fábricas e minas em troca de salários de fome. Vocês podem descobrir as atrocidades por conta própria, se não estiverem familiarizados com elas. Em 1787, calcula-se que os operários franceses trabalhavam até dezesseis horas por dia e gastavam sessenta por cento de seu salário com uma dieta que consistia em pouco mais que pão e água. Foi somente em meados do século XIX que o Parlamento inglês limitou a dez horas o dia de trabalho infantil. Desesperadas e frustradas, as pessoas se rebelaram em toda parte e os governos de toda parte reagiram com repressão sistemática, brutalidade e tirania. Insurreições gerais, insurreições camponesas, insurreições coloniais, insurreições de escravos, insurreições operárias, houve centenas delas. Não tenho condições de citar a lista inteira. No Oriente e no Ocidente, gêmeos idênticos, filhos dos mesmos pais, foi uma era de revoluções, em que morreram dezenas de milhões de pessoas.
Da mesma forma que as interações regulares e habituais entre governados e governantes, a revolta e a repressão eram novos sinais, vocês sabem ? característicos das aflições dessa era.
O lobo e o javali foram deliberadamente exterminados na Europa durante esse período. A grande torda-mergulheira da ilha de Edley, perto da Islândia, foi caçada por suas penas até extinguir-se, em 1844, tornando-se a primeira espécie a ser varrida da face da Terra por motivos exclusivamente comerciais. Na América do Norte, a fim de facilitar a construção das ferrovias e solapar a base alimentar das populações nativas hostis, caçadores profissionais destruíram os rebanhos de bisões, chacinando três milhões deles num único ano; em 1893, só restavam mil.
Nessa era, as pessoas não iam mais para a guerra defender suas crenças religiosas. Ainda as têm, ainda se apegam a elas, mas as divisões e conflitos teológicos que um dia pareceram tão homicidamente importantes haviam se tornado irrelevantes devido a interesses materiais mais prementes. Os consolos da religião são uma coisa, mas empregos, salários justos, condições de vida e trabalho decentes, liberdade em relação à opressão e uma vaga esperança de melhoria social e econômica são outra.
Acho que não seria fantasioso demais sugerir que as esperanças canalizadas para a religião em épocas anteriores foram dirigidas nesta para a revolução e a reforma política. A promessa de recompensas no outro mundo não era mais suficiente para tornar suportável a miséria da vida no caldeirão. Em 1843, o jovem Karl Marx chamou a religião de "ópio do povo". No entanto, vista mais de um século e meio depois, está claro que a religião, na verdade, deixara de ser eficaz como narcótico.
- Sinais de perigo: 1900–1960
O fogo continuava ardendo embaixo do caldeirão da nossa cultura e a nossa população só levou sessenta anos para dobrar de novo ? só sessenta. Havia três bilhões de pessoas no final do processo, pertencentes todas elas, com exceção de talvez vinte por cento, à nossa cultura, no Oriente e no Ocidente.
Que preciso dizer a respeito da água fervente do nosso caldeirão nessa era? Ainda está fervendo? Que vocês acham? Será que o primeiro colapso econômico global, que começou em 1929, parece-lhes um sinal de perigo? Será que duas guerras mundiais cataclísmicas lhes parecem sinais de perigo? Afastem-se alguns milhares de quilômetros e observem do espaço sideral como sessenta e cinco milhões de pessoas são chacinadas em campos de batalha ou voam pelos ares aos pedacinhos depois de atingidas pelos bombardeios, enquanto outros cem milhões consideram-se gente de sorte por terem escapado, ficando apenas cegas, mutiladas ou aleijadas. Estou falando de um número de pessoas igual a toda a população humana da Idade de Ouro da Grécia clássica. Estou falando do número de pessoas que seriam destruídas hoje se jogassem bombas de hidrogênio em Berlim, Paris, Roma, Londres, Nova York, Tóquio e Hong Kong.
Acho que a água está quente, senhoras e senhores. Acho que a rã está cozinhando.
- Sinais de perigo: 1960–1996
Nossa população dobrou de novo em apenas trinta e seis anos, trazendo-nos até o presente momento, em que há seis bilhões de seres humanos neste planeta, todos, menos uns poucos milhões espalhados por aí, fazendo parte da nossa cultura, no Oriente e no Ocidente.
O número de vozes do nosso grande coro das aflições aumentou gradualmente de era para era. Primeiro, veio a guerra: a guerra como produto social, a guerra como modo de vida. Durante dois mil anos ou mais, a guerra parece ter sido a única voz do coro. Mas não se passou muito tempo antes de o crime juntar-se a ela: o crime como produto social, como modo de vida. Depois, veio a corrupção: a corrupção como produto social, como modo de vida. Pouco depois, a escravidão veio juntar-se a essas vozes: a escravidão como comércio mundial e como produto social. A revolta veio logo em seguida: cidadãos e escravos insurgindo-se para dar curso ao ódio e sofrimento. Depois, quando as pressões da população aumentaram de intensidade, a fome e a peste fizeram ouvir suas vozes e começaram a cantar em todas as regiões da nossa cultura. O trabalho de massas enormes de pobres começou a ser explorados impiedosamente. As drogas juntaram-se à escravidão como comércio mundial. As classes trabalhadoras, as chamadas classes perigosas, levantaram-se em rebeliões. A economia do mundo inteiro entrou em colapso. As potências industriais do globo brincaram de dominar o mundo e praticar o genocídio.
E então viemos nós: 1960 até o presente momento.
Que canta a nossa voz no coro das aflições? Por cerca de quatro décadas, a água esteve fervendo em volta da rã. Uma por uma, mil por mil, milhão por milhão, suas células morreram, incapazes de cumprir a tarefa de se apegarem à vida.
Que estamos procurando aqui? Vou lhes dar um nome e vocês vão poder me dizer se acertei ou não. Estou preparado para lhe dar o nome de... colapso cultural. É isso que estamos cantando agora no coro das aflições não em lugar de todo o resto, mas além de todo o resto. Essa é a nossa contribuição particular ao urro de dor da nossa cultura. Pela primeira vez na história do mundo, lastimamos o colapso de tudo o que conhecemos e entendemos, o colapso da estrutura sobre a qual tudo foi construído, desde os primórdios da nossa cultura até agora.
A rã está morta e não podemos imaginar o que isso significa para nós, nem para os nossos filhos. Estamos aterrorizados.*
Acertei? Pensem nisso. Se eu estiver errado, não há mais nada a dizer evidentemente. Mas, se vocês acham que acertei, voltem amanhã à noite, que vou continuar a partir desse ponto.
* Se ela tá morta é nosso dever devolver-lhe a vida...
texto antigo de um batráquio qualquer no saudoso CMI

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