(lê e) acredita quem quiser

Saturday, December 27, 2008

O debate do coração e do corpo de Villon

(As queixas de Villon a seu coração)


— Que ouço?
— Sou eu!
— Quem?
— O teu cor
Ação, que pende de um só breve fio:
Sem substância, humor e sem mais cor,
Ao ver-te afastado e só dias a fio
E ao léu deixado como um cão vadio.
— E ao que se deve?
— À tua extravagância.
— E o que te importa?
— Apenas fico em ânsias.
— Deixa-me em paz!
— Por quê?
— Pensarei nisso.
— Quando será?
— Quando eu deixar a infância.
Mais não te digo.
— Nem me faz falta isso.





— E no que pensas?
— Ser homem de valor.
— Tens trinta: idade de um mulo, assim confio.
— É isso infância?
— Não.
— Louco é o palor
Que te suspende?
— Pelo gogó? Num fio?
— Nada sabes.
— Sim.
— Quê?
— A mosca em leite frio.
Um é branco, outra é negra: é a discordância.
— Isso é tudo?
— Não queres concordância?
Se não te basta eu pensarei mais nisso.
— Estás perdido!
— Resisto na constância.
— Mais não te digo.
— Nem falta me faz isso.
— Estou dorido. És tu, o mal e a dor.
Se fosses um pobre idiota, desconfio
Que ainda tivesses algo abonador.
Belo ou feio, é igual: teu desafio.
Cabeça dura mais que um meio fio,
Ou, mais que a honra, te apraz a dissonância?
Da dedução, que dizes em substância?
— Que, ao morrer, estarei fora disso.
— Que consolo, Deus meu!
— Que ressonância!
— Mais não te digo.
— Nem me faz falta isso.






— De onde vem este mal?
— Do amargor.
Quando Saturno teceu com poderio
O meu destino, o pôs.
— És o senhor:
Ser valete da sina é desvario.
Vê o que Salomão disse e aqui copio:
"O homem sábio (disse) tem potência
Para agir nos planetas e influência".
— Nada creio. Sou ao fado submisso.
— Mas, que dizes?
— Tal é minha evidência.
— Mais não te digo.
— Nem me faz falta isso.






— Viver não queres?
— Que Deus me dê potência!
— Isso, mas falta...
— ?
— Pesar na consciência.
Ler sem findar.
— Em quê?
— Ler na ciência.
longe dos loucos!
— Será meu compromisso.
— Ouve e retém.
— Guardo essa advertência.
— Não esperes demais, por displicência.
Mais não te digo.
— Nem me faz falta isso.

François Villon

Tuesday, December 16, 2008

Tuesday, December 9, 2008

Já que a Nata pediu...

As coisas tão pegando fogo (literalmente) na Grécia. Se sei alguma coisa a mais do fato do que os jornais escreveram? Não. Mas juntei algumas idéias e fiquei pensando; mataram um muleque de quinze anos, a Grécia tem tradição em resistência desde a ocupação nazi, a cultura social, não só na Grécia mas na Europa em geral, não pode mais ser negligenciada como o é aqui e na maioria dos países aonde a miséria impera. "Os caras lá de cima" foram obrigados a dar cultura ao povo, cada um em seus respectivos países, se não a coisa degringolava e perdiam quem os fizesse viver sem ter que se preocupar não mais que com seus palácios, mansões e clubes fechados. Preocupar-se com novos "mercados" (palavra da moda...)? Sim...
América Latina, África e parte da Ásia. Cada povo com sua cultura, cada país com sua história, mas sempre com o denominador comum de pessoas ligando-se ao que os antigos comunas chamavam de Capital Internacional; que tirando tal palavrão, não restam mais do que pessoas que não se importam um mínimo com a individualidade alheia.
Falei pra cacete de cultura, mas porquê? Falta de cultura mata! Literalmente. Que o digam os movimentos sociais que vieram se formando no Rio de Janeiro desde que o Estado começou a se querer fazer presente nas favelas e bairros pobres.